terça-feira, 3 de agosto de 2010

Uma sogra diferente...

Por experiência própria sogra nunca é uma pessoa muito amável, porem no século XIX, encontrei um caso bem diferente.

D. Joaquina Maria de Jezus Gomes França, abastada viúva, resolve doar em vida todos os seus bens, entre casas, jóias, direitos, ações e escravos para sua filha e seu genro o Doutor Patroni, sem nenhuma condição alem de alforriarem uma negra que fazia parte dos seus bens e da filha menor da mesma.

Entre suas alegações para efetuar a adoção afirmou: “tenho muita confiança em Deos, que meu genro e sua mulher hão de sempre me tratar-me bem, com aquelle carinho e amizade, com que sempre me tratarão até hoje, fazendo em tudo as minhas vontades licitas e honestas...” (Treze de Maio de 20/set/1840)

Quem dera que todas as sogras agissem assim!!!!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Antigos Colégios de Belém

Dois antigos Colégios de Belém...

Colégio Ipiranga, localizado na Av. Braz de Aguiar






Colégio São Paulo, localizado na Serzedelo Correa



Esquecidos pelo tempo e demolidos pelo Homem.....

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Ônibus “Paraense”

Os transportes públicos surgem na França por volta de 1826, realizando o transporte de passageiros entre o centro da cidade de Nantes e os banhos públicos. O termo ônibus parece vir do local onde os carros faziam o ponto final, diante de uma chapelaria, cujo dono, Omnes, em um jogo de palavras com seu próprio nome, denominou Omnes Omnibus, "tudo para todos". Em outras versões da história, porém, ônibus simplesmente decorre de voiture omnibus ("carro para todos")

No caso da capital da província do Pará, este tipo de transporte coletivo, somente veio à luz no ano de 1850, marcando sua estréia com o inicio das festividades de Nossa Senhora de Nazaré. Seu construtor e empreendedor foi Manoel Martins da Costa Serra, que implantou esse serviço cômodo e útil para a população paraense e batizou seu transporte de PARAENSE.

O “Paraense” permitia o transporte de 12 pessoas ao mesmo tempo, com comodidade, fazendo sua linha do Largo de Sant’Anna ao arraial de Nazareth, entre os horários de 6 da tarde e uma da manha, pela módica quantia de 500 rs por trecho. Era puxado por 4 cavalos e o unico incomodo era que não saia se houvesse chuva!

Mais uma inovação nas terras do Pará!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Os Periódicos no Pará

A primeira metade do século XIX na província do Pará foi marcada por diversos conflitos, de índole política e social, o que de certa maneira favoreceram para o surgimento de diversos periódicos no território que buscavam divulgar e popularizar os ideais das correntes divergentes.

Dentre as inúmeras publicações algumas perduraram enquanto a grande maioria deixou de existir quando do cumprimento de seus objetivos. Não restando na maioria dos casos nenhum exemplar dos mesmos nos arquivos do Pará.

A relação abaixo nomeia todas as publicações desde 1822 ate 1841.

1822- O Paraense
1823 – O Luzo Paraense
1824 – O Independente
1825 – O Amigo da Virtude
1827 – O Verdadeiro Independente
1827 – A Voz do Amazonas
1829 – O Brasileiro Fiel a Nação e ao Imperador
1829 – Telegrapho
1831 - O Sagitário
1831 – Correio do Amazonas
1831 – Orpheo Paraense
1831 – O Hemmedall
1831 – Opinião
1831 – Bellero – Phonte
1831 – Echo Paraense
1832 – O Liberal
1832 – O Soldado Liberal
1832 – A Luz da Verdade
1832 – O Amigo da Ordem
1832 – O Despertador
1832 – Paraguassú
1832 – O Publicador Amazoniense
1833 – O Federalista Paraense
1834 – O Vigilante
1834 – A Sentinella Maranhense na Guarita do Pará
1834 – O Desmascarador
1834 – O Correio Official
1834 – Diário do Conselho Provincial
1834 – O Mercantil
1835 – O Paquete do Governo
1835 – Sabatina
1837 – Folha Commercial do Pará
1837 – Recopilador das Anedoctas
1840 – Treze de Maio
1840 – Paquete Imperial
1841 – Publicador Paraense
1841 – Correio da Assembléia Provincial do Pará

Tristão Pio dos Santos - Presidente da Província do Pará

Tristão Pio dos Santos era filho de Pio Antonio dos Santos e de D. Maria Marciana de Sá, nascido na Colônia do Sacramento, batizado no Rio de Janeiro em 1773. Casado em Lisboa a 20-06-1806, com Gertrudes Carlota das Astúrias, natural de Lisboa, e filha de Antônio Álvares e Gertrudes Rosa.

Realizou seus estudos primários no Rio de Janeiro, transferindo-se depois para Lisboa, onde se alistou como aspirante a guarda-marinha, em 17 de junho de 1791. Em 1796 recebeu os Galões de guarda-marinha, após um curso regular e proveitoso. No mesmo ano, em 05 de novembro, foi promovido a 2º tenente e em 08 de dezembro foi designado para embarcar na Nau "Princesa da Beira", para o necessário estágio de embarque.

A sua vida de marujo desenvolveu-se brilhantemente. Escalou os vários postos, sendo que, o de capitão de Fragata, recebeu como prêmio do Príncipe Regente D. Pedro, por ter sido ele um dos comandantes que trouxeram a Família Real de Lisboa ao Rio, em 1808.

Seguindo a carreira militar ocupou vários cargos em terra e desempenhou várias comissões. Foi também comandante do Arsenal da Baia, por ocasião da Campanha Cisplatina. Recebeu a condecoração de Comendador da Ordem de Aviz em 14 de março de 1826.

Em 1827 foi nomeado Inspetor do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro.

Sentindo-se fatigado pela cansativa vida de servidor leal da Marinha foi reformado no posto de vice-almirante, em 23 de outubro de 1832.

No ano de 1837 ocupou a função de Ministro dos Negócios da Marinha (16/05/1837-18/09/1837), durante a Regência de Feijó e somente retirou-se desta pasta ministerial com a queda da Regência.

Neste período, foi amplamente atacado pelos opositores do governo, principalmente por Bernardo Pereira de Vasconcelos e passou a ser conhecido pelos órgãos de imprensa da oposição como Alegrão Ímpio dos Danos.

Chegou a Província do Pará com quase 70 anos de idade e tomou posse da administração no dia 4 de novembro de 1840. Poucos dias depois de chegar foi acometido de grave moléstia, mas mesmo assim não deixou a administração da província, mantendo-se no poder ate o dia de sua morte em 24 de fevereiro de 1841. Seus restos mortais foram sepultados na Igreja da Irmandade Militar.

Foi durante seu governo que a execução do Decreto de anistia aos elementos que fizeram parte da Cabanagem, foi concebido e posto em pratica.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A IGREJA E A FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE


As origens da Igreja da Santíssima Trindade em Belém remontam aos primórdios do século XIX.

Nas proximidades do que é hoje a Avenida Almirante Tamandaré, residia um português de nome José Antônio Abranches, que através de seu trabalho e dedicação conseguiu construir uma pequena fortuna. Este súbdito português era devoto da Santíssima Trindade e juntamente com outros elementos da sociedade paraense deliberou construir uma igreja para sua devoção, requerendo somente á Câmara municipal o terreno onde seria erguido o templo, pedido este que foi aceito.
José Abranches formou a irmandade da Santíssima Trindade e deu início a construção da igreja no ano de 1802. Mesmo com o seu falecimento as obras não foram suspensas e o novo templo católico no ano de 1813 já se encontrava em fase final de construção, contendo um altar-mór e quatro arcos nas paredes laterais, indicando os lugares onde no futuro deveriam se edificar mais 4 altares. Ocorre porem que somente no ano de 1814 a igreja foi aberta para o culto, no dia consagrado a Santíssima Trindade.
A decoração da igreja ficou a cargo dos seus fieis que mandaram buscar em Lisboa o painel indicativo do orago da igreja e os paramentos e fogos para a solenidade.

Já no ano de 1822, uma das devotas da igreja Dona Maria Simôa, transferiu para um altar próprio a imagem de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, imagem esta que foi conduzida com toda solenidade pelo vigário da igreja de Santana José Joaquim Martins
O numero de fieis era cada vez mais crescente e deste modo no ano de 1840, através de Lei provincial a igreja foi elevada a categoria de Freguesia e recebeu sua inauguração no ano de 1843, sendo seu primeiro vigário o padre Manuel Vasques da Cunha e Pinho, que presenteou a igreja com uma pia batismal que ate hoje pode ser vista.

Mesmo antes de a igreja receber a elevação para freguesia, o seu numero de fieis já era bastante considerável e deste modo sua irmandade elaborava um grande festejo em homenagem a Santíssima Trindade, que consistia em uma procissão, elevação do mastro e novenas e festejos com musica no largo da igreja.
Apesar de se considerar que os festejos iniciaram desde a construção da igreja, a documentação mais antiga e indicação destas comemorações remota ao ano de 1840, uma publicação no jornal 13 de maio.

A festa da SS Trindade é chamada por vários autores o Rei dos Domingos, por causa do grande mistério que é objeto dela, e foi por este grande mistério que nos primórdios da igreja, não existia uma dada especifica para se festejar a SS Trindade, haja vista que, não era conveniente consagrar um só dia a um mistério que lhe interessava louvar e bendizer todos os dias da vida. Somente no século X, depois da insistência de muitos devotos, a igreja concordou com a festa e mesmo assim somente 4 séculos depois o Papa João XXII fixou a data como sendo o primeiro domingo depois de Pentecoste.

Mesmo diante de toda essa importância e da freqüência que estes festejos recebiam, o templo da SS Trindade caiu em ruínas, sendo fechado no ano de 1894 e passando a funcionar a paróquia na Igreja do Rosário dos Homens pretos. Nesse mesmo ano, no dia 14 de outubro, foi colocada a primeira pedra da capela-mór pelo monsenhor José Gregório Coelho, porem coube ao padre Miguel Inácio iniciar os trabalhos de restauração da igreja.

Mesmo com o fechamento da Igreja, as comemorações continuaram a ser executadas e realizadas no largo da Igreja.
Somente no ano de 1842, foi a Igreja da Santíssima Trindade reaberta ao culto, tendo dado a benção solene ao templo e as imagens monsenhor Antonio Cunha, sendo a primeira missa, depois da inauguração celebrada pela alma do senador Cipriano Cunha.
Uma igreja e um festejo que apesar dos percalços, sempre esteve no coração dos paraenses.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Figuras que Passam


Escrevi a um tempo uma das poesias deste autor paraense, e revirando algus papeis encontrei essa homenagem feita ao mesmo, por um de seus amigos das letras.

Naquella época, de actividade para as lettras pátrias, um grupo de alumnos do Lyceu Paraense ensaiava o vôo nos domínios da phantasia, no verso e na prosa.

As balladilhas e os contos, as criticas, chonicras, os artigos de todo o gênero, e principalmente os sonetos estufavam as primeiras paginas das gazetas locaes, procurando reproduzir as correntes literárias, que imprimiam direção nova ao pensamento dos homens cultos e influíam de modo effectivo no gosto da geração contemporânea.

Chegavam por nós, ao mesmo tempo, a preocupação, o apuro de Flaubert, nos tecidos de vestir a Idea, e o cuidado doentio nas particularidades em que se derramara a prodigiosa faculdade descriptiva de Emilio Zola.

Os nomes mais representativos do parnasianismo em França, Portugal e o Brasil, eram de nosso comercio espiritual quotidiano. Convivíamos com Gauthier, Coppée, Claretie, Gonçalves Crespo e João Penha, tanto quanto com Luiz Guimarães Junior, Bilac, Alberto de Oliveira, Raymundo Correa e outros.

E a thebaida desses jovens sonhadores ficava no mesmo edifício do Lyceu, nas estreitas salas em que se apertavam as estantes da Biblioteca Publica, de tal forma que alguns milhares de livros só encontravam posição, empilhados pelo assoalho, extripados uns, e outros crivados de orifícios pela maldade inconsciente das traças. Chamavam-se eles Arthur Vianna, Alcides Bahia, Arthur Pacheco, Euclydes Dias, Bandeira de Albuquerque e alguns mais.

Separado, porém, deste grupo, encerrado no seu quarto de preparatório, que distava pouco do estabelecimento publico referido, procurava assimilar a maneira e a forma de Catulle Mendes, um mocinho bisonho, de cabeça desenvolvida, largo nariz cavalgado por petulante pincenez. Era Agostinho Vianna. O seu primeiro trabalho, estampado no Democrata, onde nos acoroçoava a benevolência amável do mestre querido, que era o Dr. Américo Santa Rosa, o respeitável velho Américo, de todos os seus discípulos encantou-me.

Não era imitação servil: possuía já uns traços de individualidade própria e, sobretudo, deixava prever um escritor digno de estima, pela maleabilidade da forma, adaptável ao thema versado.

Rithimava os seus períodos, e, se perpetrou sonetos, não deixou que ate nos chegasse o conhecimento de sua fraqueza, ou condescendência com a juventude inconseqüente...

“Loira, muito loira, como os trigais de Panville”, não sei se real, era a imagem que descantava, nuns períodos tratados com desvello, de certo refolhudos, mas muito próprios da edade das ilusões e dos sonhos.

Defluia, assim, o ano de 1893, e é quando outra surpresa me apanha, produzida pelo mesmo Agostinho Vianna.

Por ocasião da revolta da armada, elle começou a revelar-se um noticiarista attraente, capaz de se impor a atenção geral. Sobre assuntos velhos bordava trechos novos, realçava circunstâncias, refundindo-os completamente. Naquella quadra de parcimoniosa informação telegráfica, tão pouco fazia ella parte de nossos hábitos de jornalista, Agostinho Vianna deparava meios de offerecer dados sobre a revolta, que os próprios jornais do sul recebiam e adotavam alviçareiramente, a fim de os transmitirem aos seus leitores...

Coincidia quase com o termo de sua jornada pelo Lyceu a revelação desses dotes notáveis e imprescindíveis em qualquer folha moderna, e teve que os deixar sem exercício, emquanto partia com destino ao Rio para fazer o curso odontológico. È preciso notar que os trabalhos de pena, não eram de molde a desviar a sua atenção dos livros. E desse jeito, forma bem estudados os preparatórios, e o seu curso de odontologia foi feito com aproveitamento e brilhantismo.

Conhecendo-o tão bem, quando daqui partiu, em 1884, macambusio, mettido em largos e compridos casacos, andando apressado, tendo a cabeça sempre ligeiramente pendida para o hombro esquerdo, pareceu-me outro quando o encontrei casquilho, elegante nas suas roupas talhadas nos melhores alfaiates cariocas, um anno depois, na capital da Republica.

Era acadêmico e estava cheio de alegria de viver . Escrevia e virá trabalhos seus aceitos entre “os que surgiam”, na Semana, de Valentim Magalhães. Estava bem “na quadra azul da mocidade”, de que tão sentidamente falou o poeta...

Moramos juntos por algum tempo e não foi essa a era de sua mais abundante produção. Tendo-se ensaiado nas danças, as noites vadias eram dedicadas as delicias choreograficas.

Depois, separamo-nos amigos, como havíamos vivido.

Esperava eu, então, que Agostinho Vianna encerrasse a carreira na profissão para que se preparara com tanto afinco e, decorridos mezes, perdemo-nos de vista.

Andamos em campos differentes, quando iniciei a vida pratica e pouco me seria dado dizer dessa produção anonyma que prodigalisou aos jornais que escreveu.

Mas de 1913 para cá, posso garantir, dia a dia, confabulei com uma das capacidades de jornalista mais fecundas e mais brilhantes que tenho conhecimento.

Operava milagres a sua produção omnimoda e interessante. As cartas que escrevia para a Folha, do Rio, ao lado da noticia completa, architectada com a pericia de um profundo conhecedor do metier, enfeixava o conceito ponderado do commentador ao par, dos acontecimentos e necessidades da vida contemporânea.

A guerra actual teve em Agostinho Vianna um dos seus mais constantes apreciadores. E os alliados nunca tiveram mais assíduo defensor. Multiplicava-se e repartia-se por seus assumptos. Era o Capitão Ess. dos artigos técnicos sobre coisas militares da actualidade, na conflagração européia; o G das apreciações sobre as atitudes das nações em fóco na sangueira horrível; o Ignotus das correspondências circunstanciais e, o que lhe falava mais caro ao sentimento de escriptor inexgottavel, o João Ranzinza das chonicas theatrais.

Nunca vi alguém amar com tão entranhada lealdade e dedicação mais constante, como Agostinho Vianna amou o jornal.

Quando em 1915 a sorte varia nos levou a habitarmos a mesma casa, no Rio, tive novamente ensejo de lhe acompanhar de perto os modos de existência.

No seu quarto modesto, a arca bojuda, em que conduzia as roupas, dum lado, o guarda-roupa, quase deshabitado, e sob uma janela, a mesa de escrever; a cama a uma banda, e o resto destinado aos montes de jornaes, do Rio e dos Estados do Brazil. Para os seus olhos de apaixonado, não havia periódico insignificante, nem pelo tamanho nem pela quantidade de matéria. Lia tudo. Assignalava a grandes traços azues ou encarnados, quando lhe parecia digno de nota. E dessa forma, elle, que, nestes últimos annos, não vi empunhar um livro, escrevendo ou falando, comunicava a impressão de um homem de larga e variada leitura sobre múltiplos ramos dos conhecimentos humanos.

Pobre amigo! Por amor do jornal, prejudicou a vida, trabalhando ate tarde em redacções de jornais cariocas, sem pedir recompensa outra que não fosse o direito de carregar folhas de varias origens para o silencio de seu lúgurio.

Deixou o Rio, volveu ao Pará, seguiu para Pernambuco e o organismo, minado, succumbiu.

Há um anno que isso foi. E de toda essa dedicação, de todo esse trabalho, capaz de formar volumes, que se reservou para a memória do operário incansável e consummado?

(Manoel Lobato - Folha do Norte 8 de Janeiro de 1918)