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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Série: As Damas da Literatura Paraense


Esmeralda Cervantes

Clotilde Cerdá e Bosch foi uma instrumentista de renome e compositora de peças para harpa. Nasceu em Barcelona 1852 sendo filha de Ildefonso Cerdá engenheiro e da pintora Clotilde Bosch. Sua mãe mandou-a para Roma para estudar pintura com Mariano Fortuny. A jovem acabou por optar pela música, conseguindo com que a sua genialidade fosse reconhecida, por unanimidade, pelas mentes mais capazes da Europa, América e Ásia no final dos anos XIX e início do século XX.

Ficou conhecida no mundo das artes com o pseudônimo Esmeralda Cervantes. Esse pseudônimo tem origem em Victor Hugo, que a chamou com o mesmo nome que ele tinha imaginado para a heroína de seu romance Notre Dame de Paris, e Cervantes, em homenagem ao escritor espanhol.

A instrumentista estreou no Teatro Imperial de Viena em 1873, Cabouli Pasha, o embaixador turco, emitiu o titulo de harpista imperial da Embaixada da Turquia em Viena, o imperador Francisco José lhe ofereceu uma rica joia e Languenbach aproveitou a menina e levou-a de Viena a Munique e de lá para todas as grandes cidades da Confederação Germânica. Em Munique, Wagner, que a admirava, disse ao rei da Baviera, informando-o da capacidade artística de Esmeralda: Esse é o gênio.

Continuou sua turnê pela Europa se apresentando as principais casas reais como Inglaterra, Würtemberg, Holanda, Grecia e Bélgica. Seu talento e maestria estavam confirmados.

Em 1875 viajou para a América, de onde por solicitação do Imperador do Brasil iniciou uma serie de concertos pela América Latina. Somente no Caribe realizou 36 concertos e destes 28 converteu as rendas para os feridos de guerra.

A convite do sultão otomano se estabeleceu em Constantinopla onde passou a ser a harpista imperial e onde também contraiu matrimonio com o germano-brasileiro Óscar Grossmann. Seu marido era um dos acionistas da Companhia de Estradas de Ferro Urbanas Paraense e por isso mantinha residência em Belém.

Acompanhando o marido Esmeralda Cervantes acabou por fixar residência em Belém, onde passou a realizar concertos em varias instituições, incluindo o instituto Carlos Gomes. Fazia parte do conservatório de Belém, onde ministrava aulas de elementos de harpa.

Sempre voltada as artes, passou a fazer parte da primeira instituição de letras da Amazônia, a Mina Literária, onde realizava inúmeros concertos e apresentações. Foi uma das editoras do periódico A Revista, que divulgava as letras no Pará no final do século XIX.

Em 1897 solicita a câmara municipal de Belém autorização para a construção de um pavilhão de divertimento para as crianças na praça da Republica, por considerar necessário os exercícios físicos por parte das crianças. Seu pedido foi aprovado por unanimidade. Esse espaço acabou por se tornar o primeiro asilo (Creches e Kindergurten) para a infância de Belém, contando já em janeiro de 1899 com 83 crianças. Esmeraldina Cervantes era a sua presidente.

Com o intuito de arrecadar fundos para esta instituição passou a auxiliar na publicação da revista “Anjo do Lar” que revertia toda sua arrecadação para o auxilio de crianças carentes.

Durante todo o tempo em que viveu em Belém continuou a fazer concertos onde as rendas eram destinadas a caridade, fazendo apresentações inclusive em nome da Cruz Vermelha.

Em 18 de outubro de 1898, a Mina Literária recebeu em Belém os escritores italianos Gemma Ferrugi e Alberto Mazi, cabendo a ilustre harpista apresentar um belo verso de sua autoria, denominado “Mia opinion”.

Passou os últimos anos de sua vida em Tenerife ao lado do marido, vindo a falecer em 12 de abril de 1926.

Esmeraldina Cervantes não nasceu no Pará, não morreu também, porem pelos seus atos e o seu grande contributo para a difusão da musica, da educação e da caridade, deve ser incluída entre as damas da Literatura Paraense.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O Santo Imortal ou o Imortal Santo?


“Guarda-me como a pupila dos olhos, esconde-me à sombra de tuas asas, longe dos ímpios que me oprimem, dos inimigos mortais que me cercam”
Salmo 17

Hoje estava organizando alguns arquivos da Academia Paraense de Letras (agora inicio quase todos os meus post assim) e me deparei com um uma pasta de um dos antigos imortais. Eram os documentos de D. Antônio de Almeida Lustosa. Era uma pasta fina, com algumas notas recortadas de falecimento, a data que ocupou a cadeira da APL e as duas fotos que aqui publico. Nada mais!!

Diante das fotos onde se consegue visualizar o Governador Magalhães Barata, me ocorreu de buscar mais algumas informações sobre este elemento da APL esquecido pelo tempo. Acabei por me surpreender, pois apesar de sua trajetória ter sido olvidada pelos seus confrades de letras, sua imortalidade foi consagrada pelos fieis católicos.
Com o Intendente Magalhães Barata no município de Bujarú

Dom Antônio de Almeida Lustosa nasceu em 11 de fevereiro de 1886, na cidade de S. João del Rei, estado de Minas Gerais e foi ordenado padre em 1912. Foi nomeado bispo de Uberaba em 1925 permanecendo nas funções até 1928, ocupou ainda o bispado do Corumbá (1928-1931), sendo posteriormente promovido a arcebispo de Belém do Pará, pelo Papa Pio XI, no dia 10 de julho de 1931.

Chegou a Belém no dia 17 de dezembro do mesmo ano, fazendo sua entrada solene na catedral no mesmo dia. Nos dez anos de seu governo, ele visitou todo o território da Arquidiocese, apesar das grandes dificuldades de acesso e excessiva extensão territorial. A partir de setembro de 1932, Dom Lustosa passa a publicar no periódico católico "A Palavra", suas crônicas relativas às visitas pastorais. Esta coluna terá o nome de "A Margem da Visita Pastoral"; a coletânea destes artigos foi publicada como livro. De sua pena saíram ainda muitos outros livros, entre os quais uma biografia de Dom Macedo Costa, Bispo do Pará.

Dentre as muitas realizações de Dom Antônio Lustosa destaca-se a reabertura do Seminário Nossa Senhora da Conceição, confiado à administração dos salesianos; criação de diversas paróquias; instalação de comunidades religiosas dos Padres Crúzios, das Irmãs Filhas de Maria Auxiliadora, das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, das Irmãs Capuchinhas, das Angélicas de São Paulo e das Irmãs de Nossa Senhora da Anunciação. Realizou ainda a sagração da Basílica de Nazaré, a fundação da Ação Católica, participou da restauração e levantamento da Congregação do Imaculado Coração de Maria, tornando-se co-fundador, fez campanha da boa leitura, da recitação do terço e procurou valorizar o sacrifício da missa.

Todas estas atividades foram realizadas somente em solo Paraense, ao longo dos 10 anos que aqui se manteve. Foi um verdadeiro guerreiro da cruz, que a todo custo tentou minimizar o sofrimento de seu rebanho, que nesse período encontrava-se em precárias condições de vida.

Foi nomeado membro da Academia Paraense de Letras, sendo fundador e primeiro ocupante da cadeira 13 que tinha como patrono Dom Romualdo de Seixas. Sua posse ocorreu em 17 de janeiro de 1937.
Em 18/08/1953 com personalidades do Pará e alguns membros da Academia Paraense de Letras


Publicou: Dom Macedo Costa (1939), Carta Pastoral (1935), No estuário amazônico: à margem da visita pastoral (1976), Respigando (1958) e Abraçando a cruz (1982 – Publicação Póstuma).

Sua obra “No estuário amazônico: à margem da visita pastoral” foi originalmente editado em 4 volumes, entre os anos de 1932 a 1938, sendo posteriormente condensada pelo Conselho de Cultura do Pará e reeditada no ano de 1976. Esse trabalho foi o resultado, de suas minuciosas observações, realizadas no interior do Pará durante suas visitas pastorais, quanto a linguagem popular, costumes locais, alimentação, geografia e plantas regionais.

Escreveu ainda dezenas de cartas pastorais, entre elas uma de combate ao impaludismo, que acabou sendo adotada como leitura em grupos escolares da cidade de Belém.

Faleceu em 1974, com 88 anos de idade.

Segundo o Escritor e Médico Vinícius Barros Leal, foi um “homem profundamente de Deus, que se colocou muito além de um religioso comum, com seu comportamento fundamentado na ética, decidido no caminho do bem, repleto de serenidade e equilíbrio, bondade e disciplina, nunca perdendo um só minuto do seu precioso tempo”

Desde 1993 existe um processo para a canonização, aberto pela Arquidiocese de Fortaleza.

Será que em poucos anos estaremos diante de um Imortal da APL santo?

Frases de Dom Antônio Lustosa:

“Não é só de pão, mas é também de pão que vive o homem”.

“Na hora da provação apura-se-nos o sentimento da gratidão. E urge conosco o dever de significar aos que nos estendem a mão quanto nos penhorou o conforto quem, na hora amarga, nos dispensaram”

terça-feira, 28 de junho de 2011

Um Artigo do Dr. Gilmancio

Hoje resolvi transcrever um dos artigos do autor original do Álbum dos Juvêncio, o Dr. Demétrio Bezerra da Rocha Moraes, que assinava com o pseudônimo de Gilmancio.
Dr. Demétrio era um dos membros do partido Liberal e fazia forte oposição aos membros do partido conservador, estando entre um dos seus principais inimigos o Dr. Heraclio Vespasiano Fiock Romano, a quem esta carta é dirigida.

                                                              Ao sr. Dr. Juvencio Fleck

                                                                                  Quem tem a roupa rasgada não se expõem ao frio
                                                                                                                                                                                                        Gilmancio

Agradecido a v. exc. pela graciosa atenção com que me fez notar as faltas e omissões do meo álbum, devo confessar que, tendo escrito sobre a perna e circunscripto ao rodapé deste jornal, somente procurei apanhar os traços gerais do caráter de v. exc. Não pretendi escrever a sua biografia completa; ainda é muito cedo, v. exc. está moço. Mas se v. exc. deseja que desde já sejam dadas a publicidade as bases da celebração do seo centenário, eu o farei sob as suas vistas.
Por exemplo, v. exc. me dirá se eu devo falar do azar que arrebata durante a noite aquillo que a gente arranja durante o dia. Se devo tratar daquela audaciosa esperteza que a velha Gertrudes denunciou ao chefe de policia. Se sera proveitoso contar a historia daqueles terrenos que certo cavalheiro fez cercar por engano e d’aquelles outros que o mesmo cavalheiro deo a registros sito, em Marajó. Se convirá que eu diga o que significa um fiock entre os garotos & & &.

Todas estas cousas darão um grosso volume, mas prometo escreve-lo com toda consciência, em 15 dias.

Aposentado com casa mesa e luz, sobra-me tempo para procurar as razões pelas quaes v. exc. não tem aposento nem garrotes para capar.
Veja v. exc. quanto é melhor caçar dotes do que esperar o chorrilho das sortes.
Veja v. exc. quanto é melhor capar garrotes do que capar as paradas com medo do doublé.
Emfim exm. Sr., o meo particular amigo David Freire que eu muito estimo e aprecio, pedio-me que protestasse contra a afirmação de v. exc. no que se refere aos negócios da alfandega.
Diz ele que v. exc. quando veio para esta província já era homem feito,
                                                                                     De v. exc. admirador
                                                                                                                          Gilmancio

Fonte: Liberal do Pará – 14 de maio de 1882

As disputas dos políticos de hoje, são mera brincadeira de criança perto das insinuações e ofensas proferidas nessa época.

sábado, 20 de novembro de 2010

Conselheiro MacDowell


Samuel Wallace Mac Dowell foi um dos mais versáteis personagens do século XIX, se destacando em todas as áreas em que desempenhou funções. Se no início de sua vida, pensou em desempenhar a carreira militar, foi na tribuna dos tribunais, na tribuna legislativa e na tribuna do magistério que se consagrou, não deixando de lado jamais a sua grande paixão, o jornalismo.

Apesar de não ter nascido no Estado do Pará, Samuel Mac Dowell foi um dos seus maiores representantes, no cenário político da monarquia brasileira. Esse filho adotivo do Pará, nasceu em Olinda, no dia 26 de Maio de 1843, sendo filho de Samuel Wallace MacDowell e de Maria Vicência Clara de Sá, tendo ficado órfão com menos de 2 anos de idade e por este motivo foi trazido a província do Grão Pará para ser criado por sua avó Marie Chebs.

Iniciou sua vida profissional, tentando a carreira militar, mas logo a abandonou para ingressar na Faculdade de Direito do Recife, onde se formou no ano de 1867, retornando neste mesmo ano para a cidade de Belém.

Se ao regressar em Belém, engrossou as filas do partido liberal, em poucos anos verificou que seus ideais aproximavam-se mais do partido conservador, o que fez com que modificasse sua atuação política.

A carreira jornalística iniciou através das paginas do Jornal Amazonas e o Liberal do Pará, porem alguns anos depois (1 de Maio de 1873) resolve fundar seu próprio jornal, que foi intitulado “A Regeneração”, que passou a ser o órgão responsável pela defesa do partido católico, tendo o seu proprietário tomado as rédeas da defesa do bispo Dom Macedo Costa, quando de seu julgamento.

Este católico defendia ferrenhamente sua fé, o que lhe rendeu constantes colóquios com o espírita brasileiro Antonio bezerra de Menezes.

Foi eleito deputado geral para a décima legislatura (1881-1884), décima nona (1885) e vigésima (1886-1889)

Durante o desempenho de seu mandato de Deputado Geral, no ano de 1886, recebeu o convide do Barão de Cotegipe para assumir a pasta do ministério da Marinha, em substituição ao então ministro Dr. Alfredo Rodrigues Fernandes Chaves, oferta esta que aceitou e recebendo a posse das funções no dia 12 junho do mesmo ano, mantendo-se nas funções ate 10 de Maio de 1887. Na mesma data que é nomeado Ministro da Marinha recebe o titulo de Conselheiro do Império, por decreto de D. Pedro II.

Sua saída da pasta da Marinha ocorreu devido ao fato de lhe ser imposta uma nova pasta a do ministério da Justiça, que assume ainda no dia 10 de Maio de 1887, substituindo o então ministro Joaquim Delfino Ribeiro da Luz. Manteve-se no cargo ate 10.03.1888, quando da queda do gabinete do Barão de Cotegipe.

Publicou 2 obras, sendo a primeira “Contestação sobre a eleição da província do Pará”, no ano de 1878 e a segunda “Discussão do projeto da extinção gradual do elemento servil.”

Na proclamação da República foi convidado por Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e por Lauro Sodré para dela participar. Esquivou-se declarando-se vencido, mas não convencido. Após a queda do Império seguiu para Belém do Pará a fim de regularizar assuntos pessoais e de família, onde ajudou a elaborar a Constituição estadual e foi presidente da comissão de limites entre o Pará e o Amazonas. Em seguida deixou o Brasil exilando-se por livre opção em Paris onde viveu até o final de seus dias, tendo falecido, em Paris, em Clamart (Seine) de síncope cardíaca, no ano de 1908

O conselheiro e D. Ana Augusta da Gama e Costa tiveram nove filhos: Ana, casada com o industrial Brício da Costa; Samuel, advogado, casado com Dolores do Rêgo Barros; Afonso, médico, casado com Emília de La Rocque; José Maria, advogado e jornalista, casado com Georgina Cunha; Francisco, padre secular; Maria Vincência, casada com advogado e deputado Antônio dos Passos Miranda; Frederico Luís, médico, casado com Sílvia Paranhos; Delfina e Sara, ambas religiosas da Congregação Sacramentina de Paris.

sábado, 13 de novembro de 2010

A Biografia Negra de Demetrio Bezerra

Nesta ultima eleição, vimos todos os tipos de acusações feitas pelos candidatos, tanto em suas vidas públicas, quanto privadas, e nesta era de tecnologia, a internet foi um dos veículos mais utilizados para denegrir a imagem dos adversários.


Ocorre que não é um fenômeno novo, desde o inicio da política no Brasil é assim...

Para mostrar, resolvi publicar esse conjunto de acusações feitas ao político Demetrio Bezerra da Rocha Moraes, que foi o inspirador deste Blog.


O inicio dos trabalhos da assembléia provincial, referentes ao ano legislativo de 1882, foi marcado por uma verdadeira anarquia, beirando o pandemônio, onde não existia entendimento entre os partidos e cada qual tentava, a todo custo, aniquilar o outro. As comissões verificadoras, acabaram por cassar o mandato de 5 membros do partido liberal, inclusive o Dr. Demetrio Bezerra da Rocha Moraes, por considerar irregulares as suas votações. Deste modo, presidida pelo Cônego Manoel de José de Siqueira Mendes, a Assembléia provincial era majoritariamente do partido Conservador.

Logo após a cassação dos mandatos dos liberais, começou a ser publicado nos veículos de comunicação do partido Liberal, em especial o jornal, O Liberal do Pará, uma seria de artigos assinados com o pseudônimo de Gilmancio. Neste artigo se nomeou os conservadores de Juvêncios e se iniciou a publicação de uma serie de biografias dos “Juvencios” do partido Conservador. Eram artigos de caráter difamatório, que punham em causa a integridade e respeitabilidade dos membros deste partido.

Em menos de 10 dias, já corria pela cidade que o Gilmancio, era ninguém mais ninguém menos, que o Dr. Demetrio Bezerra da Rocha Moraes. Este inicialmente negou o fato, publicando artigos em sua defesa, mas em poucos dias deixou de se defender, o que levou a uma confissão tácita.

Gilmaco em uma de suas correspondências para Fiok Romano assim afirma:

“ Aposentado, com casa mesa e luz, sobra-me tempo para procurar as razões pelas quaes v. exc. Não tem aposentos nem garrotes para capar. Veja v.exm. quanto é melhor caçar dotes do que esperar o chorrilho das sortes.”[1]

Era tudo o que seus adversários queriam para iniciar uma serie de ataques. Com esse seus comentários, um velho murmúrio da cidade rapidamente voltou a tona : o seu casamento com a filho do Sr. Dr. Antonio Gonçalves Nunes.

Já em 1881, poucos meses depois de seu casamento, a disputa com seu irmão, bacharel Antonio Bezerra e com os Cardoso de Soure, trouxe ao publico, a suposta mesada e pensão, concedida pelo Dr. Nunes , ao seu genro.

Nas palavras de Fionk Romano:

“Dr. Demetrio Bezerra... decidio-se a casar para ter casa, meza e luz e ...algumas cositas mais!!... viver as custas alheias na casa de seu sogro..”[2]

Era um historia, já antes citada, por seus adversários que rapidamente voltava a boca do povo, através das paginas do jornal do partido Conservador. Seu casamento e os fatos que o circundavam, sempre serão uma arma nas mãos de seus inimigos. Fionk Romano afirma:

“...o sr. Dr. Demetrio Bezerra, levava uns restos de homem, com um sujo pergaminho de bacharel em direito, o outro dava-lhe um dote...muito dinheiro !!”[3]

Ainda:

“...os requisitos de uma celebre carta anti-nupcial...”[4]

Mais o que mais dava munição para os conservadores era, mesmo vivendo à custa, do sogro e na casa do mesmo, não respeitava, nem a este nem a esposa, e continuava a manter uma família paralela.

“...sustenta uma casa de família à rua dos Martyres que tem a seu cargo !!”[5]

Não duvidavam mesmo que seria capaz de por em suas crônicas, sobre o pseudônimo de Gilmancio, o retrato de seu sogro, no Álbum dos Juvencios, uma vez que mesmo afastada a 9 anos da Assembléia e somente retornado neste ano, o Dr. Nunes era um lendário membro do partido conservador.

O próprio Dr. Nunes não foi poupado, e insinuações foram feitas ao seu respeito e a origem de sua fortuna.

Existi ainda uma outra duvida a circular, o que tinha feito o Dr. Demetrio com o dote pago por seu sogro?

“...Caloteou a quem pode com protesto de pagar, quando recebesse o dote de seu casamento!!!...”

E passado quase um ano deste pagamento:

“...ate os objetos da toilettes de seu casamento estão por pagar...”

Rapidamente o passado do Dr. Demetrio começou a fazer parte dos tablóides e velhas historias murmuravam :

“...a celebre doação feita por um demente e outras cositas mais!!...”

“...as peripécias do roubo dos autos do cartório do escrivão Lima..”

Este último, fazendo referencia o desaparecimento de uns autos de uma ação movida contra o finado Comendador Acatauassu, do cartório do escrivão Marcellino M . Lima, do qual este teve que pagar o valor de 4 contos de réis pelo sumiço.

“O Dr. Demetrio tem queda para viver á custa alheia...”[6]

Fazia-se referencia isso a um antigo caso que possuiu antes de casar, com uma conhecida meretriz da cidade de Belém:

“... esteve à soldo de uma meretriz..”[7]

“...Antes de achar a casa de seu sogro... teve a fortuna de encontrar uma pobre mulher que lhe fornecia casa, mesa , luz e ate dinheiro para sustentar seus vícios...”[8]

“Nunca Alexandre Dumas Filho poderia encontrar melhor executor do papel de Armando com Margarida Gauthier, na Dama das Camélias, do que o Sr. Dr. Demetrio com a sua Tété...”

Para piorar as coisas, neste mesmo período, certos incidentes vão ocorrer em Soure, e as atitudes tomadas pelo Dr. Demetrio serviram ainda mais para a chuva de criticas , que lhe direcionavam.

Em um artigo de 20 de maio de 1882, publicado no Liberal do Pará, Dr. Demetrio sai em defesa do 2° suplente do juízo de Soure, Dr. Justino Machado de Miranda, acusando de arbitrariedade, tanto o prefeito como outros elementos da administração de Soure, que haviam emitido mandado de prisão para este senhor. Nada pareceria estranho se não fosse as circunstancias e os motivos que levaram a esta ordem de prisão.

Dr. Justino Miranda, deflorou sua jovem cunhada Izabel, irmã de sua esposa, de apenas 17 anos de idade, e conseqüentemente a engravidou, sendo que a jovem era órfã, e era tutelada pelo mesmo, sendo ele também o representante da jovem no processo de inventario que se abria em relação aos bens deixados por sua mãe.

Procurando minimizar o escândalo, resolveu retira-se de Soure, para uma de suas propriedades nos arredores da cidade, juntamente com sua família, incluindo a jovem cunhada, ao qual era tratada como uma segunda esposa. Levava também uma escrava, ao qual havia, em parceria, com sua esposa, concedido a liberdade. Dias depois a ordem de prisão, lhe chega as mãos. Nesta ordem a acusação de roubo de escrava, efetuada pelo Sr. Joaquim da Rocha Bezerra, cunhado de sua esposa e responsável pelos bens a serem inventariados.

A escrava ao qual o Dr. Manoel concedeu a liberdade, estava no rol dos bens a serem inventariados e que estavam sobre a custodia do Sr. Joaquim da Rocha Bezerra. A escrava foi presa e a menor retirada da tutela do cunhado. Nada disso, atingiria o Dr. Demetrio, se a jovem em questão não fosse sua prima legitima e o Sr. Joaquim da Rocha Bezerra seu tio.

“Consta-nos que o Dr. Demetrio Bezerra irá a Soure, defender o deflorador de sua prima e o roubador da escrava de seu tio!!”[9]

A sua queda pela boemia e pelos jogos de azar também não foram deixados de lado, e será neste quesito que alem da sua integridade familiar a sua integridade profissional ser aposta em causa.

“Não jogo como s.s. fiado para nunca mais pagar...”[10]

“Lembra-se que quando chefe de policia, do que ficou devendo em diversas bancas de Baden em Nazareth, que ainda hoje esperam pelo pagamento?!”[11]

Mas acusações mais graves eram feitas a respeito do desempenho de suas funções como chefe de policia:

“Lembra-se s.s., ainda quando chefe de policia, quando se dirigia as bancas de baden para examinar o dinheiro dos banqueiros, afim de ver se haviam cédulas falsas?!”[12]

Os ataques e artigos referentes ao Dr. Demetrio eram quase que religiosamente, diários, sendo executados, principalmente por Fiock Romano, Evaristo Lima e um assinante “parente da órfã deflorada”, que fazia referencia a jovem deflorada, em Soure. Dr. Demetrio, poucas defesas fazia as acusações, realizando no mais ataques, hora com a sua própria assinatura, hora como Gilmancio, pseudônimo da discórdia. Essa sua aparente recusa e limitação de defesa, acabou por ceder terreno para os seus inimigos , que intensificaram os ataques e o grau das acusações. A gravidade das acusações alcançara o seu auge, em um artigo publicado em 22 de maio denominado de “Cain”.

“...Quem teve a temeridade de levantar a sacrílega mão para ferir a sua própria mãe é um ente desprezível;

Quem por mais de uma vez tem escandalizado o publico na luta fratricida que tem tido com seu honrado irmão, vitima de seu ódio satânico é um réprobo;

Quem, para pagar dividas de jogo serve-se do cargo de policia para cometer as maiores das infâmias é um miserável...”
[13]

Nada mais baixo poderia ser referido a um homem do que a suposta agressão feita a sua própria genitora. Diante destas acusações o Dr. Demetrio resolveu tomar uma decisão e as cabíveis providências.

“Accedendo a pedidos de amigos a quem muito considero, entre os quaes o exm. Sr. Vice-presidente da província Dr. Domingos Antonio Raiol, tenho resolvido não responder mais aos insultos que pela `Contituição´ me dirige o seu redacto, o Sr. Dr. H. V. Fiock Romano.”[14]

E será nesta mesma tentativa de por uma pedra sobre o assunto, que veremos, pela primeira vez, o Dr. Demetrio se defender, diretamente, das acusações feitas a sua pessoa. Primeiramente em relação a acusação de conflitos com sua mãe, publica parte de uma carta, enviada pela mesma, meses antes de falecer e informa que de fato sua mãe faleceu ao seu lado.

“Soure 17 de julho de 1879

Demetrio,


Desejo que tenhas gozado boa saúde. Eu vou vivendo sempre com a dor no coração. Peço que me digas em que estado esta o negocio da nossa fazenda, pois eu quero retirar-me daqui; quero ver se fico boa fazendo uma viajem para fora da província e so contigo conto para me fazer todo o bem que poderes, o que te hei de agradecer...”
[15]

A segunda acusação que resolveu se defender foi sobre a utilização do cargo publico para a colheita de benefícios. Sr. Demetrio tinha ocupado o cargo de delegado de policia e interinamente o de chefe de policia pelo período de 16 meses. E assim se defende e intima seus adversários:

“...que aponte um facto desonroso por mim praticado nos cargos de delegado e de chefe de policia interino desta província...”[16]

Nos dias que se sucederam a esta declaração de tréguas, ainda foi visível alguns artigos, assinados pelos conservadores, mais muito mas se defendendo do que atacando e com a proximidade das eleições, os olhos do povo se voltaram para outros assuntos...

O povo costuma dizer que: “O jornal de hoje é o lixo de amanha” e assim foi e assim é!

______________________________________________
[1] O liberal do Pará de 14 de maio de 1882
[2] A Constituição 15 de maio de 1882
[3] Idem...
[4] Idem..
[5] Idem...
[6] idem
[7] A constituição de 19 de maio de 1882
[8] A Constituição de 15 de maio de 1882
[9] A Constituição de 22 de maio de 1882
[10] A Constituição 15 de maio de 1882
[11] Idem
[12] idem
[13] A Constituição de 22 de maio de 1882
[14] O liberal do Pará de 24 de maio de 1882
[15] O Liberal do Pará de 24 de maio de 1882
[16] idem

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Tristão Pio dos Santos - Presidente da Província do Pará

Tristão Pio dos Santos era filho de Pio Antonio dos Santos e de D. Maria Marciana de Sá, nascido na Colônia do Sacramento, batizado no Rio de Janeiro em 1773. Casado em Lisboa a 20-06-1806, com Gertrudes Carlota das Astúrias, natural de Lisboa, e filha de Antônio Álvares e Gertrudes Rosa.

Realizou seus estudos primários no Rio de Janeiro, transferindo-se depois para Lisboa, onde se alistou como aspirante a guarda-marinha, em 17 de junho de 1791. Em 1796 recebeu os Galões de guarda-marinha, após um curso regular e proveitoso. No mesmo ano, em 05 de novembro, foi promovido a 2º tenente e em 08 de dezembro foi designado para embarcar na Nau "Princesa da Beira", para o necessário estágio de embarque.

A sua vida de marujo desenvolveu-se brilhantemente. Escalou os vários postos, sendo que, o de capitão de Fragata, recebeu como prêmio do Príncipe Regente D. Pedro, por ter sido ele um dos comandantes que trouxeram a Família Real de Lisboa ao Rio, em 1808.

Seguindo a carreira militar ocupou vários cargos em terra e desempenhou várias comissões. Foi também comandante do Arsenal da Baia, por ocasião da Campanha Cisplatina. Recebeu a condecoração de Comendador da Ordem de Aviz em 14 de março de 1826.

Em 1827 foi nomeado Inspetor do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro.

Sentindo-se fatigado pela cansativa vida de servidor leal da Marinha foi reformado no posto de vice-almirante, em 23 de outubro de 1832.

No ano de 1837 ocupou a função de Ministro dos Negócios da Marinha (16/05/1837-18/09/1837), durante a Regência de Feijó e somente retirou-se desta pasta ministerial com a queda da Regência.

Neste período, foi amplamente atacado pelos opositores do governo, principalmente por Bernardo Pereira de Vasconcelos e passou a ser conhecido pelos órgãos de imprensa da oposição como Alegrão Ímpio dos Danos.

Chegou a Província do Pará com quase 70 anos de idade e tomou posse da administração no dia 4 de novembro de 1840. Poucos dias depois de chegar foi acometido de grave moléstia, mas mesmo assim não deixou a administração da província, mantendo-se no poder ate o dia de sua morte em 24 de fevereiro de 1841. Seus restos mortais foram sepultados na Igreja da Irmandade Militar.

Foi durante seu governo que a execução do Decreto de anistia aos elementos que fizeram parte da Cabanagem, foi concebido e posto em pratica.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Figuras que Passam


Escrevi a um tempo uma das poesias deste autor paraense, e revirando algus papeis encontrei essa homenagem feita ao mesmo, por um de seus amigos das letras.

Naquella época, de actividade para as lettras pátrias, um grupo de alumnos do Lyceu Paraense ensaiava o vôo nos domínios da phantasia, no verso e na prosa.

As balladilhas e os contos, as criticas, chonicras, os artigos de todo o gênero, e principalmente os sonetos estufavam as primeiras paginas das gazetas locaes, procurando reproduzir as correntes literárias, que imprimiam direção nova ao pensamento dos homens cultos e influíam de modo effectivo no gosto da geração contemporânea.

Chegavam por nós, ao mesmo tempo, a preocupação, o apuro de Flaubert, nos tecidos de vestir a Idea, e o cuidado doentio nas particularidades em que se derramara a prodigiosa faculdade descriptiva de Emilio Zola.

Os nomes mais representativos do parnasianismo em França, Portugal e o Brasil, eram de nosso comercio espiritual quotidiano. Convivíamos com Gauthier, Coppée, Claretie, Gonçalves Crespo e João Penha, tanto quanto com Luiz Guimarães Junior, Bilac, Alberto de Oliveira, Raymundo Correa e outros.

E a thebaida desses jovens sonhadores ficava no mesmo edifício do Lyceu, nas estreitas salas em que se apertavam as estantes da Biblioteca Publica, de tal forma que alguns milhares de livros só encontravam posição, empilhados pelo assoalho, extripados uns, e outros crivados de orifícios pela maldade inconsciente das traças. Chamavam-se eles Arthur Vianna, Alcides Bahia, Arthur Pacheco, Euclydes Dias, Bandeira de Albuquerque e alguns mais.

Separado, porém, deste grupo, encerrado no seu quarto de preparatório, que distava pouco do estabelecimento publico referido, procurava assimilar a maneira e a forma de Catulle Mendes, um mocinho bisonho, de cabeça desenvolvida, largo nariz cavalgado por petulante pincenez. Era Agostinho Vianna. O seu primeiro trabalho, estampado no Democrata, onde nos acoroçoava a benevolência amável do mestre querido, que era o Dr. Américo Santa Rosa, o respeitável velho Américo, de todos os seus discípulos encantou-me.

Não era imitação servil: possuía já uns traços de individualidade própria e, sobretudo, deixava prever um escritor digno de estima, pela maleabilidade da forma, adaptável ao thema versado.

Rithimava os seus períodos, e, se perpetrou sonetos, não deixou que ate nos chegasse o conhecimento de sua fraqueza, ou condescendência com a juventude inconseqüente...

“Loira, muito loira, como os trigais de Panville”, não sei se real, era a imagem que descantava, nuns períodos tratados com desvello, de certo refolhudos, mas muito próprios da edade das ilusões e dos sonhos.

Defluia, assim, o ano de 1893, e é quando outra surpresa me apanha, produzida pelo mesmo Agostinho Vianna.

Por ocasião da revolta da armada, elle começou a revelar-se um noticiarista attraente, capaz de se impor a atenção geral. Sobre assuntos velhos bordava trechos novos, realçava circunstâncias, refundindo-os completamente. Naquella quadra de parcimoniosa informação telegráfica, tão pouco fazia ella parte de nossos hábitos de jornalista, Agostinho Vianna deparava meios de offerecer dados sobre a revolta, que os próprios jornais do sul recebiam e adotavam alviçareiramente, a fim de os transmitirem aos seus leitores...

Coincidia quase com o termo de sua jornada pelo Lyceu a revelação desses dotes notáveis e imprescindíveis em qualquer folha moderna, e teve que os deixar sem exercício, emquanto partia com destino ao Rio para fazer o curso odontológico. È preciso notar que os trabalhos de pena, não eram de molde a desviar a sua atenção dos livros. E desse jeito, forma bem estudados os preparatórios, e o seu curso de odontologia foi feito com aproveitamento e brilhantismo.

Conhecendo-o tão bem, quando daqui partiu, em 1884, macambusio, mettido em largos e compridos casacos, andando apressado, tendo a cabeça sempre ligeiramente pendida para o hombro esquerdo, pareceu-me outro quando o encontrei casquilho, elegante nas suas roupas talhadas nos melhores alfaiates cariocas, um anno depois, na capital da Republica.

Era acadêmico e estava cheio de alegria de viver . Escrevia e virá trabalhos seus aceitos entre “os que surgiam”, na Semana, de Valentim Magalhães. Estava bem “na quadra azul da mocidade”, de que tão sentidamente falou o poeta...

Moramos juntos por algum tempo e não foi essa a era de sua mais abundante produção. Tendo-se ensaiado nas danças, as noites vadias eram dedicadas as delicias choreograficas.

Depois, separamo-nos amigos, como havíamos vivido.

Esperava eu, então, que Agostinho Vianna encerrasse a carreira na profissão para que se preparara com tanto afinco e, decorridos mezes, perdemo-nos de vista.

Andamos em campos differentes, quando iniciei a vida pratica e pouco me seria dado dizer dessa produção anonyma que prodigalisou aos jornais que escreveu.

Mas de 1913 para cá, posso garantir, dia a dia, confabulei com uma das capacidades de jornalista mais fecundas e mais brilhantes que tenho conhecimento.

Operava milagres a sua produção omnimoda e interessante. As cartas que escrevia para a Folha, do Rio, ao lado da noticia completa, architectada com a pericia de um profundo conhecedor do metier, enfeixava o conceito ponderado do commentador ao par, dos acontecimentos e necessidades da vida contemporânea.

A guerra actual teve em Agostinho Vianna um dos seus mais constantes apreciadores. E os alliados nunca tiveram mais assíduo defensor. Multiplicava-se e repartia-se por seus assumptos. Era o Capitão Ess. dos artigos técnicos sobre coisas militares da actualidade, na conflagração européia; o G das apreciações sobre as atitudes das nações em fóco na sangueira horrível; o Ignotus das correspondências circunstanciais e, o que lhe falava mais caro ao sentimento de escriptor inexgottavel, o João Ranzinza das chonicas theatrais.

Nunca vi alguém amar com tão entranhada lealdade e dedicação mais constante, como Agostinho Vianna amou o jornal.

Quando em 1915 a sorte varia nos levou a habitarmos a mesma casa, no Rio, tive novamente ensejo de lhe acompanhar de perto os modos de existência.

No seu quarto modesto, a arca bojuda, em que conduzia as roupas, dum lado, o guarda-roupa, quase deshabitado, e sob uma janela, a mesa de escrever; a cama a uma banda, e o resto destinado aos montes de jornaes, do Rio e dos Estados do Brazil. Para os seus olhos de apaixonado, não havia periódico insignificante, nem pelo tamanho nem pela quantidade de matéria. Lia tudo. Assignalava a grandes traços azues ou encarnados, quando lhe parecia digno de nota. E dessa forma, elle, que, nestes últimos annos, não vi empunhar um livro, escrevendo ou falando, comunicava a impressão de um homem de larga e variada leitura sobre múltiplos ramos dos conhecimentos humanos.

Pobre amigo! Por amor do jornal, prejudicou a vida, trabalhando ate tarde em redacções de jornais cariocas, sem pedir recompensa outra que não fosse o direito de carregar folhas de varias origens para o silencio de seu lúgurio.

Deixou o Rio, volveu ao Pará, seguiu para Pernambuco e o organismo, minado, succumbiu.

Há um anno que isso foi. E de toda essa dedicação, de todo esse trabalho, capaz de formar volumes, que se reservou para a memória do operário incansável e consummado?

(Manoel Lobato - Folha do Norte 8 de Janeiro de 1918)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Barão de Igarapé-Miry


Antônio Gonçalves Nunes era filho do Capitão José Antônio Nunes e de Gertrudes Rosa da Cunha Ledo, tendo nascido em Belém do Pará em 28 de julho de 1817 e falecido em 21 de novembro de 1898 na mesma cidade.

Perdeu o pai ainda bastante moço, nos conflitos oriundos da Adesão do Pará a Independência do Brasil, tendo sido criado pela mãe. Exercendo a função de guarda entrou em combate por ocasião da capital do Para ser tomada pelos cabanos em 1835, do qual saiu ferido; depois serviu sucessivamente de vogal da junta de justiça militar, para alguns dos cujos julgamentos foi designado relator; na Guarda Nacional foi lhe dada à patente de tenente.

Formado em Direito pela Faculdade de Olinda em 1844, ao regressar ao Pará, ingressou na vida política, onde permaneceu ate seus últimos dias. Foi um dos chefes do Partido Conservador da Província do Grão Pará, juntamente com o cônego Siqueira Mendes, Raimundo José de Almeida, Raimundo Clementino de Castro Valente, Francisco Carlos Mariano e outros.

Foi eleito deputado à Assembléia Provincial em diferentes legislaturas. Nas eleições de maio de 1852 para deputado Provincial, acaba por ficar como primeiro suplente, do mesmo modo que o comendador Domingos Borges Machado Acatauassú, que mais tarde viria a ser seu sogro, sendo porem que este ocupou a 25ª colocação da suplência .

Sua entrada oficial na Assembléia será na legislatura de 1854, que teve sua abertura em 15 de agosto deste mesmo ano. Nesta legislatura serviu de 1° secretario, e função que desempenhou ininterruptamente, com exceção de 1855, ate 1863. No fim do mandato de 1863 retirou-se da Assembléia Legislativa, retornando somente a esta casa no ano de 1868, sendo reeleito em 1869, para em 1870, assumir sua presidência.
Será no ano de seu retorno a Assembléia Legislativa , que ira apresentar, juntamente com João Lourenço Pais de Sousa, uma petição do ex-líder da Cabanagem, Eduardo Nogueira Angelim, para que o Governo o indenize pelo terreno, de sua propriedade, onde se iniciava a construção de um palacete do Governo .

Dr. Nunes ocupara o cargo de presidente consecutivamente por 3 vezes, sendo nas legislaturas de 1869 a 1872. Servindo sempre com dignidade e sobre a admiração de seus pares.

No final de seu mandato de Deputado e Presidente da Câmara, já se encontrava um pouco decepcionado e desiludido com a política, ocorrendo alguns desentendimentos com alguns membros do se partido, o Conservador, e com o próprio Cônego Siqueira Mendes. Mesmo assim se lança candidato para o ano de 1873, saindo novamente vitorioso e sua credibilidade confirmada pelas urnas.

Suas relações com o Cônego começam a se deteriorar, e mesmo sendo do mesmo partido, passa a criticar a política adotada por seu correligionário. No final deste mandato resolve se afastar do partido Conservador e do cenário político, levando consigo seu prestigio, estima e respeito. Seu exílio, voluntário da Câmara, será, desta vez de 9 anos.

Durante seu afastamento da Assembléia Legislativa foi presidente da Comissão de Colonização Estrangeira, e como tal teve também a seu cargo o alojamento e acomodação dos retirantes cearenses, no decurso da crise ultimamente ocasionada pela seca na província do Ceará, e a aplicação ou execução dos socorros públicos.

É condecorado com o oficialato da Imperial Ordem da Rosa, que lhe foi dado em carta de 12 de julho de 1876, por ocasião dos serviços que prestou a colonização estrangeira e o titulo Barão de Igarapé-Mirim, pelo mesmo motivo por decreto de 3 de março de 1883.

Mesmo estando a desempenhar outras atividades e seus negócios, não conseguiu manter-se afastado muito tempo da política e com a aproximações das eleições para a assembléia, referentes ao ano legislativo de 1882, e o visível enfraquecimento do partido conservador, muitos elementos deste partido, resolveram solicitar o retorno do Dr. Nunes, e sua candidatura. Apesar de suas negativas e de sua vontade de permanecer fora do cenário político, será eleito, mostrando que nem o tempo foi capaz de apagar, na memória do povo o seu valor .

Ocorreu que o seu retorno não foi como esperava. Rapidamente, impasses começam a surgir entre ele e seus correligionários. A presidência da assembléia será ocupada, pelo cônego Siqueira Mendes, responsável pela desilusão de Nunes há 9 anos. Novamente insatisfeito com o andar da política, resolve tomar uma medida de imparcialidade e de não comparecimento as seções da Assembléia, que lhe renderá duras criticas.

Neste mesmo ano, a reputação de seu genro será gravemente abalada, e ameaçada, ocorrendo por parte dos inimigos de seu genro, citações e insinuações sobre a conduta de Nunes, quanto a sua honestidade e a origem de sua vasta fortuna. Mas mesmo assim sua imagem pública não foi abalada e encarando o eleitorado, volta a ser reeleito consecutivamente por mais 5 vezes .

Em sua ultima legislatura, já encontrasse com a avançada idade de 70 anos. Com a Proclamação da República vai se filiar ao Partido Democrata, porem nunca mais será visto a desempenhar funções legislativas.

A idade já não lhe permite realizar todas as atividades de outrora, mas mesmo assim no ano de 1897, prestes a completar 80, vai ser chamado por seu partido para concorrer como vice-governador, na chapa de oposição à José Paes de Carvalho. Foi uma derrota esmagadora, foram somente 2.045 votos, frente aos 21.367 de Antônio Nicolau Monteiro Baena. Eram outros tempos, outros, homens.. um novo século estava por vir e 50 anos já haviam se passado, desde que pela primeiro vez, o velho Barão tinha adentrado nos palácios do Governo.

Concomitantemente ao político existia o educador, Antonio Gonçalves Nunes era fissurado pelas letras e muito criticado pelo seu vocabulário erudito. Serviu o lugar de diretor da Instrução Pública da Província, o de membro do conselho diretivo da mesma instituição, o de presidente das mesas de exame de Retórica, Filosofia, Francês e Português. Irá se aposentar no exercício destas funções.

No ano de 1846 vai participar, juntamente com outros intelectuais da Província, da Fundação da Sociedade Phylomatica Paraense, esta sociedade tinha por finalidade o progresso das Belas Letras, da arqueologia, da história e da geografia da província. Esta mesma sociedade vai dar origem a um jornal que teve sua primeira edição impressa a 30 de setembro de 1846, e no qual Antonio foi fiel colaborador, deixando para posteridade diversos artigos.

Juntamente com o Visconde de Nazaré, o Barão de Muaná, e o presidente da província, o Visconde de Maracaju, apoiou e tentou arrecadar recursos para os experimentos, dos balões, de Júlio César Ribeiro de Sousa.

Escreveu durante algum tempo na imprensa, expondo sobre as vantagens que podem auferir do cuidado e desenvolvimento da agricultura, que considerava como uma das fontes da riqueza publica. É o autor da obra “O cônego Manoel José de Siqueira Mendes e as ruínas do Pará”, publicado pela Typ. Commercio do Pará, em 1875.

Casado com Rita Gonçalves Acatauassú , filha do Comendador Domingos Borges Machado Acatauassú e de Dona Ana Teresa Gonçalves Acatauassú; com quem teve 3 filhos: Antônio Acatauassú Nunes, Rita Acatauassú Nunes Bezerra, casada com Demétrio Bezerra da Rocha Morais, e Domingos Marcellino Acatauassú Nunes.